SINTOMAS: A TRILHA PARA A EVASÃO

Todos os estudos sobre evasão que tive oportunidade de analisar procuravam identificar as suas causas. Acertadamente, como em qualquer outra análise racional, encontre a causa e estará encontrando o caminho da solução. Evitando as causas estará reduzindo ou até impedindo o problema.

Ocorre, no entanto, que a evasão é um fenômeno multifatorial, que não permite a plena identificação das suas causas. Pior, suas causas interagem entre si de diferentes maneiras em diferentes contextos e ocasiões. Às vezes, a falta de dinheiro para pagar a faculdade pode influenciar mais na saída do aluno em um dado contexto do que em outro. Por exemplo, considere este nosso momento de grave crise econômica, sabemos que ela afeta significativamente as decisões de gastos das famílias, nele é provável que elas estejam menos propensas a assumirem dívidas para manter os filhos na Faculdade que em outro de prosperidade econômica.

Embora seja difícil se antecipar à evasão para assim evita-la, há vários modelos de previsão que ajudam a combate-la, ao menos em parte. Tecnologias de mineração de dados e inteligência artificial realizam correlações estatísticas e fornecem informações preditivas com certo grau de confiança. Contudo, além de complexos eles requerem dados e informações que não são de fácil obtenção e atualização.

Um outro caminho que as análises de causa e efeito também oferecem e a racionalidade científica também recomenda é a análise dos sintomas, como método de aproximação para a solução de problemas. As ciências médicas fazem um largo uso desse recurso metodológico para permitir diagnósticos e prognósticos de doenças. Quero dizer que a evasão, como qualquer outro fenômeno, apresenta sintomas (sinais) que não são as causas, propriamente ditas, mas se manifestam sempre que elas existem. Veja o caso da febre, é um sintoma que pode indicar a presença de uma infecção e de várias outras doenças.

A evasão manifesta vários sinais, mas alguns são tão sintomáticos como a febre é para uma infecção. O mais óbvio de todos é a ausência do aluno nas aulas. Claro, nem todo aluno que falta se evade, como nem toda febre é sinal de infecção, mas as faltas além de certa medida, são um forte sintoma da evasão. Aliás, quando um aluno falta sucessivamente há grande probabilidade de ele já ter se evadido. Isso porque, são raras as vezes em que ele avisa que está indo ou foi embora, em geral abandona às aulas, simplesmente.

Há que se acentuar, mesmo os modelos preditivos de evasão mais sofisticados, não podem dispensar o registro da ausência parcial ou definitiva do aluno, seja através da constatação de faltas sucessivas, ou porque ele não fez a rematrícula.

Se as faltas são um forte sintoma da evasão, então, espera-se que toda e qualquer Instituição que queira enfrenta-la monitore periodicamente a frequência dos alunos, tal qual os médicos fazem com a temperatura dos enfermos. Pergunte-se, então, com que periodicidade e fidedignidade a sua Instituição registra e controla a ausência dos seus alunos.

Para estabelecer um diagnóstico preliminar dessa situação, fizemos as perguntas abaixo para professores de diferentes regiões brasileiras utilizando o Google Forms. Enviamos ao todo 50.000 convites por email.

  • Qual o seu tipo de Instituição (pública ou privada)?
  • Com que regularidade você informa a frequência de seus alunos à sua Instituição (Diariamente, semanalmente, quinzenalmente, mensalmente mais que mensalmente)?
  • Por que meio a frequência é registrada (físico ou virtual)?

Recebemos 140 respostas, nas primeiras 72 horas, conforme segue. Embora a quantidade (0,28%) não tenha significância estatística, muitas considerações podem ser feitas a partir destas respostas.

Estes números mostram que 52,9% dos professores apuram a frequência diariamente e que deles, 42,8% utilizam meios virtuais. Observar este aspecto é crucial quando se quer avaliar qualquer tipo de controle de frequência, dado as dificuldades da manipulação de dados registrados em meio físico. Do mesmo modo, dos 16,4% registros semanais, 4,2% são realizados por meio físico.

A fidedignidade do registro da frequência é outro aspecto a ser analisado, dado que os professores, em alguma proporção, registram alunos ausentes como presentes, ao arrepio da lei.  As razões para isso são muitas, seja porque não conseguem o tempo necessário e consideram a presença integral, usam o registro da frequência como moeda de troca no relacionamento ou os alunos respondem ou assinam a lista de frequência por outros colegas.

Não obstante, se considerarmos apenas os registros feitos por meio virtual, teremos 55% dos professores informando a frequência dos alunos em até uma semana. Isso suscita a seguinte questão: Qual a probabilidade de uma pessoa que falta mais que cinco dias consecutivos deixar a Instituição? A resposta à esta questão, relacionada com os 45% dos registros informados em um momento posterior a uma semana, dará a primeira noção do quão distantes estamos do controle da evasão.

Em busca desta resposta, a cinco anos atrás fizemos um estudo com os alunos evadidos de várias Instituições e constatamos que grande parte deles tomaram a decisão de sair antes ou dentro do intervalo de cinco dias de faltas consecutivas.

Se o próprio bom senso mostra que o controle da frequência funciona como um termômetro da evasão, porque, então, as Instituições investem tão pouco nele. Talvez pelo fato de ser algo difícil de apurar e porque dependa demasiadamente dos professores.  Sim porque além das raras exceções, a verificação da presença é realizada através de chamadas nominais que consomem um tempo raro de aula e são muito chatas de fazer e de responder.

Um controle de frequência em tempo real, que não dependa do tempo de aula e seja feito por via digital é, sem dúvida, um atalho indispensável para enfrentar a evasão. Difícil? Por incrível que pareça, há soluções simples que podem ser desenvolvidas, adotadas e assimiladas rapidamente, inclusive, com redução dos custos operacionais.

 

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